Introdução ao slow jigging - técnica, equipamentos e história

Postado em 31/05/2017 por | 11904 visualizações

Sem dúvida alguma os jumping jigs revolucionaram a pesca esportiva, tanto em água doce quanto em água salgada. A possibilidade de buscar os peixes em qualquer profundidade em que estejam abriu um universo inteiramente novo aos pescadores esportivos de todo o mundo. Mais recentemente, uma evolução desse tipo de pesca vertical vêm se espalhando e ganhando muitos adeptos por sua grande eficiência e outras vantagens menos óbvias. Pra falar sobre a febre do Slow Jigging convidamos um dos expoentes no assunto aqui no Brasil, nosso amigo e membro Vinicius Cordeiro, que traça abaixo um panorama bastante amplo e deixa aqui um verdadeiro material de referência e consulta, para todos que estão iniciando ou querem saber mais sobre essa interessante modalidade!

Assim como outras tantas inovações na pesca esportiva, a prática do Slow Jigging (ou Slow Pitch Jigging pra usar o nome completo) foi iniciada há alguns anos no Japão, pelo respeitado pescador Norihiro Sato. Diante do grande desgaste físico gerado pelas tradicionais pescarias oceânicas com jig, que deixam o pescador exausto após um dia inteiro no mar subindo e descendo essas pesadas iscas em alta velocidade, o mestre enxergou uma possibilidade diferente e partiu para um novo conceito em pesca vertical, onde menos é mais. Outros pescadores japoneses que estudaram com Sato passaram posteriormente a multiplicar seus conhecimentos e têm dado continuidade à evolução dessa forma de pescar. Hoje o "slow" se espalha rapidamente pelo mundo, com cada vez mais praticantes inclusive aqui no Brasil, sendo incontestável o fato de que o Japão encontra-se ainda num patamar muito mais avançado que os demais países em relação às técnicas e à disponibilidade de equipamentos específicos.

Slow Pitch Jigging significa em termos práticos "jigar em passos lentos", ou seja, trabalhar o jig em menor frequência ao longo da coluna d'água, mais cadenciadamente. Trata-se de uma forma bastante versátil e dinâmica de pesca vertical, apresentando bons resultados em qualquer profundidade. Na pesca de fundo (badejos, pargos, chernes, namorados, etc) o slow chega a ser até mesmo mais produtivo que o modo tradicional de jigar (speed jigging), já que o pescador consegue manter a isca por mais tempo na zona de ataque dos peixes que habitam essa região, trabalhando o jig rente ao fundo. Caso o foco sejam os "peixes de passagem" como olhos de boi, olhetes, atuns e cavalas, basta subir o jig e trabalhá-lo na profundidade específica em que os cardumes ou grandes peixes isolados estiverem.

O slow jigging funciona muito bem para peixes de fundo...

.... e também para peixes pelágicos.

CARACTERÍSTICAS E VANTAGENS

Quando pescamos com jigs utilizando equipamentos e técnica padrão, ou seja, recolhendo velozmente e dando muitas jigadas rápidas desde o fundo até a superfície, estamos basicamente imitando um pequeno peixe em fuga. Já no slow exploramos mais as quedas do jig (muito mais longas) e o efeito disso é que a isca simula nesse caso um peixe ferido ou agonizando. Ambos os estímulos (presa em fuga e presa ferida) exercem forte apelo sobre muitas espécies predadoras que habitam nossos mares, mas no fim das contas o slow apresenta algumas vantagens ao pescador, que resumo e explico abaixo:

● Exige menor esforço físico, pelo trabalho do jig ser menos intenso e mais confortável, além dos próprios equipamentos serem em geral mais leves.
● Consegue ser efetivo e render belos exemplares mesmo naqueles dias em que o peixe está manhoso, devido à ação mais cadenciada e apresentação mais realista da isca.
● Proporciona um ganho real em termos de produtividade média das pescarias, já que explora uma área bem ampla de maneira mais completa, sendo efetivo na captura de um grande número de espécies.

É por todas essas razões que quem pratica o slow jigging costuma dizer que ele é a evolução do modo antigo.

EQUIPAMENTOS

Passando para os materiais utilizados no slow, vamos abordar algumas especificidades de cada um dos principais itens.

Carretilhas

No geral utilizamos carretilhas de perfil alto no slow jigging. Carretilhas de perfil baixo também podem ser usadas, nas pescarias mais leves e em profundidades menores. O uso de molinete também é possível, sendo apenas um pouco menos confortável e sensível, já que a entrada/saída de linha não é tão "direta" quanto nas carretilhas.

As melhores opções para a modalidade são as carretilhas que consiguem recolher pelo menos 75cm por manivelada na profundidade em que se estiver pescando. Essa escolha vai influenciar positivamente no desgaste físico do pescador, no trabalho do jig e até na ação exercida pela vara. O tamanho da manivela também ajuda na briga com o peixe, na puxada do jig e a trabalhar em águas mais profundas. Manivelas acima de 80mm facilitam as coisas. Obviamente a escolha da carretilha ou molinete deve levar em conta também a força e suavidade de seu freio, além da capacidade de linha, fatores que devem ser analisados à luz do tipo de peixes que se pretende pescar e das profundidades que o pescador pretende atingir.

Tipo de carretilha muito utilizada no slow

Varas

As varas de slow são bem específicas, mais finas e com uma resistência diferenciada, sendo muito mais eficientes na “puxada” do jig. Normalmente são construídas em carbono tubular, com tamanho oscilando entre 6'3" e 7' e passadores do tipo "torqued", além de cabo longo e fino com blank exposto, para maior sensibilidade e melhor alavanca, podendo ser apoiado embaixo do antebraço ou axila.

A libragem (resistência) costuma ser baixa em relação às tradicionais varas de jigging oceânico, variando normalmente entre 20 e 30 libras. Entretanto, a forma de construção dessas varas e a qualidade dos materiais garante uma grande capacidade de trabalhar inclusive jigs mais pesados. O importante é frisar que cada vara traz uma indicação de peso de jig ideal para que ela exerça a ação a que se destina e não apresente riscos de avarias ou mesmo quebra. Essa indicação deve ser respeitada sempre que possível, para que esse importante equipamento tenha a vida útil esperada.

Exemplo de vara para slow (cabo longo e passadores torqued)

Linhas

No Japão costuma-se utilizar linhas entre PE 1.2 (aproximadamente 0,18mm) e PE 1.5 (0,20 mm). No Brasil como felizmente temos peixes grandes e muito fortes é recomendável usar boas linhas multifilamento que sejam um pouco mais resistentes, como PE 2 (0,23mm), PE 2.5 (0,26mm) e PE 3 (0,28mm). Como é possível perceber as linhas são muito mais finas do que no jigging tradicional, isso se deve ao fato de que no slow a sensibilidade é o fator principal e vem em primeiro lugar. Além disso uma linha fina aumenta o controle do pescador sobre o trabalho do jig e facilita que ele desça mais rápido e em linha reta até o ponto desejado, por gerar menos arrasto no contato com a água.

O uso de leader de fluorcarbono é aconselhável, por conta da proteção extra que ele oferece em relação a partes cortantes do corpo de alguns peixes e às estruturas submersas mais afiadas, como pedras e naufrágios, além do fato de sua elasticidade ser próxima a zero, permitindo respostas mais rápidas que se traduzem num maior controle sobre o trabalho da isca e na percepção quase instantânea de qualquer tipo de investida contra a mesma, mesmo de peixes pequenos. A bitola (espessura) e resistência do leader deve ser escolhida com base no tipo de lugar onde acontecerá a pescaria e nas espécies e porte dos peixes almejados.

Anzóis e jigs

O anzóis também são mais específicos para a prática do slow. Espessura fina, alto potencial de fisgada e boa resistência são as características fundamentais. O ideal é buscar um bom balanceamento entre elas. No geral usamos 4 anzóis em cada jig: 2 no support que vai na parte frontal e 2 no support que vai na parte traseira. Como são mais finos, mais leves e com grande poder de penetração, os 4 anzóis muitas vezes "abraçam" a boca/cabeça do peixe, dividindo a força exercida entre eles, de modo que cada um precise aguentar menos carga por si só. A quantidade de anzóis utilizados vai depender da situação de pesca em cada região e do gosto/bolso de cada pescador.

O formato, tamanho, peso e as cores dos jigs para slow variam bastante. Eles são assimétricos, o que significa que os dois lados não possuem o mesmo desenho. Ao olhá-lo de perfil, percebe-se essa discrepância, que é justamente o que confere a ação diferenciada durante a caída, fazendo a isca se passar por um peixe ferido. Normalmente jigs desenvolvidos especificamente para slow passam por bastante estudo e testes antes de irem para o mercado, sendo que cada um pode ter uma ação única e diferente, mais ou menos como acontece com os plugs que usamos na pesca de arremesso (pincho). Devido a toda a pesquisa que existe por trás deles e por ainda ser meio que uma novidade no Brasil, os jigs para slow são geralmente mais caros que os jigs convencionais, situação que vem mudando aos poucos, conforme fabricantes nacionais começam a produzir seus próprios modelos para nosso mercado doméstico.

Um jig para slow visto por vários ângulos

Montagem padrão com dois support hooks com dois anzóis cada

Em complemento a todos os equipamentos listados acima, é importante frisar que para que o slow pitch jigging mostre toda sua eficiência é vital que a linha esteja o máximo possível na vertical. Quanto mais "reta" a descida da linha, mais facilmente o jig pode fazer seu próprio trabalho, tendo uma caída perfeita e sendo mais atrativo. Num plano ideal, para que isso ocorra o mar precisa estar parado, com pouca ou nenhuma corrente, e o vento também deve ser mínimo. Como obviamente essa conjunção de fatores é bastante rara, existem algumas soluções que podem ser empregadas para melhorar a situação de pesca.

A primeira opção (e mais simples) é contar com um bom piloto na embarcação, que se dedique exclusivamente a mantê-la em cima do ponto desejado, enquanto os outros tripulantes pescam. A segunda solução possível é utilizar uma âncora de mar (drogue), uma espécie de paraquedas que age dentro d'água amenizando a caída da lancha, atuando de forma contrária ao vento. Por fim, existe um tipo de embarcação específica, chamada spanker, que além do motor possui uma espécie de vela na popa, que é usada para anular a ação do vento e permitr que o barco caia junto com a corrente, o que possibilita manter o jig por mais tempo na vertical. Até o momento ainda não me deparei com nenhum relato da existência desse tipo de embarcação no Brasil.

Âncora de mar (drogue) e barco tipo "spanker"

TÉCNICA - MODOS DE TRABALHAR O JIG

Existem várias formas de se trabalhar um jig e cada pescador tem suas preferências. O importante na verdade é lembrar de alternar o trabalho até achar aquele que seja o mais produtivo pra situação de pesca em que você se encontra. No slow trabalhamos a isca "a passos lentos", como o próprio nome sugere, sendo que o peixe na maioria das vezes pega quando o jig está caindo. Existem três variações básicas de trabalho de jig nesta modalidade:

Slow pitch

Uma puxada / uma manivelada. Este é o trabalho mais tradicional, alternando uma puxada lenta para cima numa amplitude similar à do jigging tradicional com um giro da manivela, podendo este ser de ½ volta, ¼ de volta ou uma volta completa, sempre esperando a vara fazer toda sua ação antes da próxima sequência. Basicamente espera-se cerca de 1 segundo entre cada repetição.

High pitch

Similar ao trabalho anterior, porém com puxadas mais vigorosas da vara, que fazem o jig nadar ou cair em queda livre por mais tempo e consequentemente cobrir uma área maior. Depois da puxada na vara esperamos que o próprio jig estique a sobra da linha, para que possamos dar outra manivelada. Jigs mais compridos são bem vindos nesse tipo de trabalho, demorando cerca de 2 a 3 segundos para completar o ciclo de modo que possamos repetir a ação. Varas mais reforçadas são indicadas para este trabalho.

Long fall

Consiste em levar a vara para cima em direção a sua cabeça lentamente e o mais alto possível, deixando o jig cair em queda livre na sequência, enquanto se baixa a ponta da vara até o nível da água, dando uma ou duas maniveladas a seguir para então repetir a sequência de movimentos. É um trabalho produtivo em diversas situações, sendo muito usado naqueles momentos em que os peixes não estão muito ativos.

CONCLUINDO...

Esta matéria é apenas uma introdução ao rico universo do slow jigging. Como se pode ver, o slow mistura uma abordagem mais simples da pesca vertical com equipamentos e técnicas específicas e bastante elaboradas, visando em última análise o aumento da produtividade nas pescarias. Para aqueles que pretendem ou já estão embarcando na modalidade, é válido lembrar que o aprendizado na prática é muito mais divertido e fácil do que por qualquer outro meio que possamos utilizar. Mesmo assim, espero que este conteúdo possa servir como um material básico de referência pros interessados no assunto. O slow jigging cresce a passos largos em nosso país, que por sua vez oferece excelentes condições para se aproveitar todo o potencial da modalidade. A medida que o slow vem tomando maiores proporções no Brasil, novos adeptos se juntam ao que era até pouco tempo um pequeno grupo. E assim vamos desenvolvendo nossas próprias técnicas, iscas e abordagens. Se você costuma pescar de jig mas ainda não experimentou esta novidade, posso garantir que vale à pena!

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   e mais 32 fisgaram isso.
Baca
Essa matéria merece ser impressa e estudada com marca texto... Muito bom, Vinicius! Parabéns
  • 31/05/2017

  • Fisgar
Ritinha
Uma aula mesmo, pescaria pra gente grande hehehe parabéns
  • 01/06/2017

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Armando Bezerra
Tudo muito bem explicado e ilustrado. Parabéns pela matéria!
  • 01/06/2017

  • Fisgar
André Sesquim
Sou suspeito pra falar, mas ficou um baita conteúdo de referência mesmo pra modalidade! Agora só falta você me levar pra eu colocar em prática o que aprendi com a matéria rsrsrs valeu manão!
  • 01/06/2017

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Vinicius cordeiro
Vlw galera... Quando fazemos o que gostamos é sempre melhor
  • 01/06/2017

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Pedro Ortigosa
Muito bom! Caraca eu tava procurando uma matéria assim sobre slow em português a um tempo já, valeu! Vinicius cordeiro me diz uma coisa, tem alguma marca nacional ou custom que fabrica varas próprias pra slow jigging?? Obrigado brother!
  • 02/06/2017

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Carlos Alberto Gusman
Parabéns Vinicius uma baita aula e um conteúdo top de linha
  • 02/06/2017

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Vinicius cordeiro
Pedro Ortigosa . Cara, as minhas varas quem faz é o Waka. Curti cada detalhe e ação. Temos algumas marcas como M&W Jigging, V-fox, Karasu que tem alguma coisa de Slow. A Redai tambem vai entrar no mercado do Slow pitch, novidades na feira de 2017. Obrigado pelo elogio.
  • 02/06/2017

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Decio.Neto
Muito didático... show de bola parabéns....
  • 02/06/2017

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Pedro Ortigosa
Valeu Vinicius cordeiro, obrigado pelas informações!
  • 04/06/2017

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Mateus Kenji Shimada
Parabéns, excelente matéria!! Sempre tive curiosidade de entender melhor como funciona essa técnica, apesar de raramente pescar embarcado.
  • 04/06/2017

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Jonas Pescador
Rapaz apesar de não ser minha praia tenho que dar os parabéns viu.. importante reconhecer quando um trabalho é bem feito e com certeza esse artigo ajudará muita gente que pesca no mar. Parabéns e que venham outros!
  • 05/06/2017

  • Fisgar
Pesqueiro 67
Parabéns pelo belo conteúdo fico feliz de ver matérias com tanta tecnica aqui no clube. É bom misturar umas desse tipo com outras mais no estilo relato de pescaria. Conhecimento e diversão são sempre bemvindos!
  • 06/06/2017

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Paulo Pita
Muito bom.
  • 22/06/2017

  • Fisgar
Matheus Lorenzoni Butzen
Ótimo conteudo....
  • 22/06/2017

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Pedro Ortigosa
Uoohooo! Finalmente vou ter meu primeiro contato com o slow, pescaria marcada! Tirei umas dicas daqui rsrsrs puta ansiedade!
  • 23/06/2017

  • Fisgar
Vando Faustino da Silva
Muito boa a explicação! Uma dúvida, essa isca poderia funcionar para pesca de tucunarés em lagos profundos substituindo iscas vivas? Como é o caso do lago de Serra da Mesa.
  • 13/09/2017

  • Fisgar
joao acacio
MUITO BOA A EXPLICAÇÃO , PRINCIPALMENTE AGORA QUE VOU PESCAR NESTE FIM DE SEMANA E VOU TENTAR ESTE ESTILO DE PESCARIA PELA PRIMEIRA VEZ. ESPERO QUE DE CERTO, PROXIMA SEMANA DIVULGO O RESULTADO PRA VOÇES. OBG!
  • 04/12/2017

  • Fisgar
Anderson Fontinele
Deu certo João? Hehe
  • 11/12/2017

  • Fisgar
Vinicius cordeiro
Pedro Ortigosa , sei que já faz uns meses que não apareço por aqui. Hoje no mercado temos algumas varinhas já projetadas e voltadas para a modalidade.

Gomoku Black
Saint Plus Slowdeep BC
V-Fox
Major Crosstage
  • 08/02/2018

  • Fisgar
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