Salvando uma viagem de pesca fadada ao fracasso

Postado em 05/05/2017 por | 1620 visualizações

Quem é pescador de verdade sabe muito bem que nem sempre as coisas dão certo numa pescaria. Todos já passamos por dias ruins na água e nem por isso deixamos de amar o que fazemos. Quando criamos esta seção Fishnews, nossa ideia principal era que fosse um espaço no site para matérias e relatos de boas pescarias, mas por outro lado tínhamos também o interesse de trazer um pouco mais de realismo ao cenário da pesca esportiva brasileira. Em tempos de matérias pagas e conteúdos fakes ou forçados em tantas mídias, consideramos que seja muito importante abordar a pesca como ela é: feita de dias bons e dias ruins, de algumas investidas que dão certo e de outras que não acontecem como esperávamos. Hoje publicamos aqui um exemplo de uma viagem de pesca que não foi nem sombra do que era esperado, mas que foi salva com um pouco de otimismo, autoconfiança e uma dose de criatividade. Com vocês, a pesca como ela é, nua e crua!

Assim como muitos aqui, fui iniciado na pescaria por meu pai quando ainda era criança. Cresci pescando com ele e depois de uma certa idade passei a acompanhá-lo em várias viagens de pesca pelo país à fora, participando dos grupos que ele organiza. Boa parte dessas viagens "deram certo" e foram muito divertidas dentro e fora d'água, mas nem sempre as coisas saem como planejado e com o tempo aprendemos que isso faz parte do jogo da vida. A experiência que trago aqui provavelmente é familiar a muitos que viajam pra pescar. São tantos os fatores envolvidos numa empreitada dessas que todos, mais cedo ou mais tarde, estamos sujeitos a embarcar em uma furada. E essa furada que conto aqui aconteceu justamente num lugar maravilhoso, que por sinal eu adoro: o Rio Guaporé.

O belo rio que desta vez nos fez passar aperto

Há vários anos atrás fiz uma das melhores viagens de pesca da minha vida, passando uma semana no Rio Guaporé, batalhando com as inúmeras espécies que habitam esse paraíso na divisa do Brasil com a Bolívia. Pegamos um barco hotel na região de Porto Rolim de Moura e navegamos por locais incrivelmente belos e piscosos. Passados alguns anos e feitas algumas viagens para outras regiões, a turma que sempre pescava junto resolveu voltar ao Guaporé, até porque todos tinham uma boa lembrança do lugar. Dessa vez resolvemos mudar o estilo da pescaria e trocamos o barco hotel por uma pousada na beira do rio. A opção também foi por uma região diferente, muitos quilômetros ao sul de onde tínhamos ido anteriormente. Na época não fazíamos ideia do impacto que essa decisão de mudança teria em nossa viagem.

UM INÍCIO MUITO RUIM

Partimos para Cabixi (RO) e as coisas começaram a dar errado antes mesmo de chegarmos ao destino final. Depois de pousar no aeroporto de Vilhena pegamos o micro ônibus da pousada e no meio da viagem pela estrada de chão um dos pneus estourou. Ficamos parados no meio do nada por um bom tempo enquanto o motorista tentava fazer a troca com a ajuda do grupo e a luz do dia acabava (e os mosquitos faziam a festa). Chegamos na pousada cansados, com fome e de cara percebemos que o atendimento e a qualidade das refeições não seriam lá aquelas coisas. Foram 5 dias de cardápio limitado e repetitivo, comida nem sempre quente e demora para sermos atendidos. Mas essa parte de infraestrutura não é o que mais importa à quem viaja pela pesca em si, tudo isso seria relevado se no dia seguinte fôssemos pra água e fizéssemos uma boa pescaria. Não foi o caso.

Quando amanheceu, dividimos as duplas entre os barcos e seus piloteiros e partimos pra água. Logo ficou claro que a coisa seria difícil. Os piloteiros estavam longe de serem guias de pesca, na verdade eram moradores da região e donos dos seus próprios barcos que eram contratados pela pousada para trabalhar conforme a necessidade aparecia. Esse tipo de terceirização significa que eles tinham níveis de conhecimento e competência completamente diferentes entre si. O estado de conservação dos barcos e motores também variava muito, assim como o comprometimento com a qualidade do serviço prestado e com a satisfação do cliente. No sorteio, eu e meu pai fomos "premiados" com um dos piloteiros mais fracos e preguiçosos.

Como se não bastasse isso, em poucos minutos navegando deu pra perceber que a água do rio estava mais alta e suja do que o esperado (e do que nos fora informado poucos dias antes por telefone) e pra desanimar de vez, descobrimos que a região em que estávamos era muito mais batida do que aquela que havíamos visitado anos antes. Muitos pescadores profissionais, turistas de final de semana e uma multidão de pescadores "esportivos" que nunca ouviram falar em pesque e solte lotavam o rio e seus afluentes. Em 5 ou 6 quilômetros de navegação contamos nada menos que 37 embarcações pescando! Com tanto barulho e movimento na água a todo instante, os peixes apresentavam um comportamento extremamente manhoso, até mesmo os peixes de couro, que eram inicialmente o foco principal dessa viagem.

Vilas, ranchos, pousadas... pressão de pesca nas alturas!

MUDAR PARA APROVEITAR

Conversando com algumas pessoas da região todos foram unânimes em dizer que a pesca estava cada vez pior por ali. Alguns inclusive mencionaram que a população de peixes de couro vinha diminuindo rapidamente enquanto a quantidade de piranhas disparou. Diante de um cenário destes e de um primeiro dia muito fraco, com apenas algumas pequenas cacharas embarcadas, percebemos que tínhamos de mudar nosso foco e nossa atitude, se quiséssemos aproveitar minimamente a viagem e evitar cinco dias de frustração.

Um dos poucos filhotes de cachara fisgados no primeiro dia

Depois do desapontamento inicial com os peixes de couro, tomamos algumas decisões. A primeira foi "peitar" nosso piloteiro, exigindo que não economizasse gasolina e navegasse em busca de locais distantes da muvuca que pescava perto da pousada. Também passamos a decidir os pontos onde pescaríamos seguindo mais a nossa própria intuição do que o (pouco) conhecimento dele.

Nos afastando da pousada, encontramos locais interessantes

A segunda decisão foi mudar completamente o estilo de pesca. Deixamos de lado os peixes de couro, fugindo dos grandes poços e pontos do leito do rio onde a pressão de pesca era maior. Passamos a buscar locais mais rasos, baías e lagos marginais, investindo quase todo nosso tempo na pesca com iscas artificiais. A decisão se mostrou muito acertada e conseguimos assim "salvar" parcialmente a viagem, garantido muitas horas de diversão com os tucunarés, apapás, cachorras, saicangas e jacundás da região.

O valente tucunaré pitanga da bacia do Guaporé

As pequenas e agressivas saicangas também deram as caras

Apapá amarelo: o acrobata do rio!

As piranhas são onipresentes na região

Dublê de tucunas...

... e dublê de soltura!

Mesmo a pesca dessas espécies menores não estava fácil. Mas toda crise gera uma oportunidade e é aí que a criatividade do pescador entra! Em lugares onde os peixes não atacavam na superfície como gostaríamos, passamos a utilizar iscas softs com jighead e trabalho bem lento, descendo mais na coluna d'água, o que garantiu várias capturas. Nos locais onde os tucunarés ignoravam as artificiais ou estavam receosos em atacar por conta do movimento e barulho dos barcos, nós migramos para a isca viva e passamos a pescar bem cedo, antes que os outros pescadores saíssem. Para acelerar a coleta dos lambaris e conseguir utilizá-los antes que a multidão aparecesse, improvisamos sabikis, muito usados em água salgada, em duas varas lisas que tínhamos conosco, o que permitiu termos uma boa quantidade de iscas novas e bem vivas para que partíssemos rapidamente atrás dos tucunarés.

Jacundá na soft

Pescando as iscas

Lambari no sabiki

Anzol wide gap: bom pra manter as iscas vivas por mais tempo

E tome tucuna!

PARA ALÉM DA PESCA

Sempre que fazemos uma viagem dessas, há mais para se aproveitar do que apenas a pescaria em si. Esta aliás é uma das chaves para salvar uma viagem onde a pesca esteja ruim. Olhe adiante, curta as paisagens, as pessoas, a gastronomia, seja o que for... no nosso caso nos divertimos e relaxamos com uma coisa que o Guaporé permite apreciar em qualquer parte do seu curso: sua exuberante natureza. Essa é uma região de fauna e flora riquíssimas e com lugares deslumbrantes, então nos momentos de paradeira acabamos transformando a viagem em um mini safári fotográfico.

Eles estão sempre à espreita...

O boto é mais um predador aquático abundante no Guaporé

A mata ciliar e suas pinturas

LIÇÕES E CONCLUSÕES...

Mesmo em condições adversas sempre há um jeito de curtir uma viagem de pesca. Por isso esse é um nicho que vêm crescendo tanto e cada vez mais pescadores formam grupos e rodam o país atrás dessas experiências. Seja pela persistência, pela criatividade ou pela capacidade de enxergar o que existe de bom além da pescaria, o pescador que se preza arranja um jeito de se divertir!

E na hora de jogar a linha n'água, vale à pena ousar, variar, pensar fora do padrão e tentar coisas diferentes. E o mais legal é que esse raciocínio serve tanto para grandes viagens à locais exóticos e distantes, quanto para pescarias rápidas pertinho de casa. Se boa parte da graça e do charme do nosso esporte está justamente na sua imprevisibilidade, façamos dela uma oportunidade de aprender e crescer!

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O Fishclub é um projeto colaborativo por natureza. Portanto, se você tem algum conteúdo interessante e inédito sobre pesca e gostaria de vê-lo transformado numa matéria aqui na nossa seção Fishnews, é só enviar um email para [email protected] explicando sua ideia e mostrando um pouco do seu material, que nossa equipe fará uma avaliação do mesmo e retornará o seu contato. Caso suas imagens, texto e demais informações atendam os nossos padrões de qualidade e sejam consideradas de interesse para nossa comunidade, o seu conteúdo pode virar a próxima matéria publicada aqui no Fishclub!

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   e mais 24 fisgaram isso.
Pedro Ortigosa
Muito massa! Ao invés de ficar dando murro em ponta de faca ou chorando porque as coisas não são como se espera tem que fazer isso mesmo. Meter as caras, ser criativo e insistir! Parabéns pela bela viagem e pela bela matéria!
  • 05/05/2017

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Ritinha
Lindas imagens!!! Que lugar incrível.
  • 05/05/2017

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Baca
Excelente matéria, irmão! Lindas imagens e muita informação bacana. Toppppp
  • 05/05/2017

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jair miguel
esse manja da escrita,faz a gente viajar junto no texto,que,como sempre ,excelente
  • 05/05/2017

  • Fisgar
Armando Bezerra
Muito bom! O Guaporé é lindo demais. Infelizmente nenhum lugar está totalmente imune à ganância e ao descontrole do homem. Bacana como vocês reverteram a situação!
  • 05/05/2017

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Decio.Neto
Excelente Matéria Sesquim! Parabéns brother... a realidade nua e crua das pescarias... isso é uma coisa que esta em falta nas mídias em geral... parabéns pela viagem e pela atitude de pensar fora da caixa, isso sempre salva a pescaria... procurar fazer diferente e inovar... grande abraço
  • 05/05/2017

  • Fisgar
Rocha FSB
Isso aí, nem sempre as coisas dão certo mas o importante é fazer o melhor da situação! Mandou bem!!
  • 05/05/2017

  • Fisgar
Jean Cabeça
Lugar maravilhoso, parabéns pela matéria !
  • 06/05/2017

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Vinícius
Matéria muito bem feita até "viajei" com vocês!!!!E é muito importante vocês relatarem a verdade pois assim é possível ajudar o máximo possível outros pescadores nessa situação!!!! Parabéns.
  • 06/05/2017

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Pesqueiro 67
Muito bom, pesca de verdade é isso! Fazer o melhor de cada oportunidade. Nem sempre vai ser perfeito como queremos..
  • 07/05/2017

  • Fisgar
Rivaldo Dias
Que lugar incrível, quanta vida animal! E com tucunas então, fica perfeito. Parabéns!
  • 08/05/2017

  • Fisgar
Jonas Pescador
Que jornada amigo! Muito interessante a matéria e as fotos fantásticas.
  • 09/05/2017

  • Fisgar
Edmar Alves
Uma viagem dessas, para pessoas experientes como vocês, com certeza ficará imortalizada na memoria, porque a felicidade na minha opinião está mais relacionada a SUPERAÇÃO, se fosse um pescaria "padrão" iria ser só mais uma na memoria de vocês, mas diante a frustração de chegar ao local e deparar com...
  • 10/05/2017

  • Fisgar
Gellian
Boa materia, fotos lindas
  • 10/05/2017

  • Fisgar
André Sesquim
Valeu galera! Quem não tem cão caça com gato. Tínhamos duas opções nessa viagem, ficar choramingando e dando murro em ponta de faca, passando raiva com a pescaria fraca de peixes de couro... ou tentar algo diferente.
  • 12/05/2017

  • Fisgar
Bruno
Muito interessante e bem escrito o relato, parabéns!!
  • 04/01/2018

  • Fisgar
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